domingo, 26 de agosto de 2012

Nem sequer um relance para o meu decote, intrigante e suspeito


Depressa, depressa, tenho de andar depressa. Estúpida rua longa e estreita, e estúpido chão feito de mil pedras com mais anos e mais história que um sem abrigo. Magoei o dedo maior do pé, porque é que vim de chinelos sequer? Antes chulé que caminhar magoada.
 Tenho de me despachar, já só tenho 5 minutos. Depressa, depressa, tenho de andar depressa
Estava mesmo determinada a atravessar a rua, concentrada na saída daquele caminho sem fim, nem sequer reparei nele.. até suspirar o meu nome .. brincadeira, até ... chamar por mim. Estava sentado no chão a desenhar. Trocamos algumas palavras e disse-lhe que tinha de correr, ele acenou. E de facto corri, agarrei  as minhas mamas com o braço, metaforicamente falando prendi o que me prendia a mim, por um segundo fui pena a pairar no ar, senti-me leve.. que tola eu.
Faltava  um minuto, a senhora parecia torcer o nariz, mas serviu-me na mesma bacalhau á brás, então presumo que cheguei a tempo, sem jantar já não fico. Pousei o tabuleiro e despedi-me gentilmente da senhora. Enquanto fazia o caminho de volta, questionava-me se ele ainda estaria ali a desenhar, já se fazia tarde, já se fazia escuro. Olhei  para o meu reflexo no vidro de um carro, os meus dentes estavam decentes e o hálito de peixe desaparecera com a pastilha de menta, era seguro continuar.
Cheguei á rua longa e estreita, e a mesma entrada pela qual queria tanto sair, custava-me agora a atravessar. Será que ele ainda lá esta? E se estiver o que vou fazer? E se fizer o que.. não espera perdi raciocínio... Hoje o meu signo dizia que me iria sentir corajosa, então fiz um acto corajoso. Respirei o suspense dos filmes de terror, e... e lá estava ele sentado no chão a desenhar. Aproximei-me e falamos. Ele sentado e eu em pé, até que decidi juntar-me e encostar-me também a parede. Estranho.. ele não olhou para as minhas mamas, nem sequer um relance para o meu decote, intrigante e suspeito ao mesmo tempo, não sei se passou o teste gay. Com que então és um bom menino? Eles existem? Gajo decente? Ou simplesmente gay... parece me razoável a ultima.
Uma das desvantagens de raciocinar cada fracção do momento, é ficar presa no tempo e deixar o corpo no espaço, livre... Agora reparo que estou muito perto dele, a nossa distância é de um palmo... de um dar de mãos tímido. Tem os olhos tão grandes e castanhos, são enormes, são redondos como a lua, uma lua castanha, uma lua de chocolate. Olhos que me enfrentam, e miram á espera de uma resposta, resposta que demoro a dar, porque estou presa no tempo, estou ocupada a analisar cada movimento, cada piscar de olhos, cada roçar de lábios, o simbolismo de cada palavra. E quem demora 3 segundos a responder de volta é retardo, o que faz de mim ligeiramente retardada então, quando na verdade o meu único "crime" é ser observadora, demasiado.

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