quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ela pensou, enquanto ele pensava

Ela_



Depressa, depressa, tenho de andar depressa. Estúpida rua longa e estreita, e estúpido chão feito de mil pedras com mais anos e mais história que um sem abrigo. Magoei o dedo maior do pé, porque é que vim de chinelos sequer? Antes chulé que caminhar magoada.
 Tenho de me despachar, já só tenho 5 minutos. Depressa, depressa, tenho de andar depressa.
Estava mesmo determinada a atravessar a rua, concentrada na saída daquele caminho sem fim, nem sequer reparei nele.. até suspirar o meu nome... brincadeira, até... chamar por mim. Estava sentado no chão a desenhar. Trocamos algumas palavras e disse-lhe que tinha de correr, ele acenou. E de facto corri, agarrei o meu peito com o braço, metaforicamente falando prendi o que me prendia a mim, por um segundo fui pena a pairar no ar, senti-me leve. Que tola eu.
Faltava  um minuto, a senhora parecia torcer o nariz, mas serviu-me na mesma bacalhau á brás, então presumo que cheguei a tempo, sem jantar já não fico. 
Pousei o tabuleiro e despedi-me gentilmente da senhora. 

Enquanto fazia o caminho de volta, questionava-me se ele ainda estaria ali a desenhar, já se fazia tarde, já se fazia escuro. Olhei  para o meu reflexo no vidro de um carro, os meus dentes estavam decentes e o hálito de peixe desaparecera com a pastilha de menta, era seguro continuar.
Cheguei á rua longa e estreita, e a mesma entrada pela qual queria tanto sair, custava-me agora a atravessar. Será que ele ainda lá esta? E se estiver o que vou fazer? E se fizer o que é que.. não espera perdi o raciocínio... Hoje o meu signo dizia que me iria sentir corajosa, então fiz um acto corajoso. Respirei o suspense dos filmes de terror, e... e lá estava ele sentado no chão a desenhar. Aproximei-me e falamos. Ele sentado e eu em pé, até que decidi juntar-me e encostar-me também a parede. Estranho.. ele não olhou para as minhas mamas, nem sequer um relance para o meu decote. Intrigante e suspeito ao mesmo tempo, não sei se passou o teste gay. Com que então és um bom menino? Eles existem? Gajo decente? Ou simplesmente gay... parece me razoável a última.

Uma das desvantagens de raciocinar cada fracção do momento, é ficar presa no tempo e deixar o corpo no espaço, livre. Agora reparo que estou muito perto dele, a nossa distância é de um palmo... de um dar de mãos tímido. Tem os olhos tão grandes e castanhos, são enormes. Redondos como a lua, uma lua castanha, uma lua de chocolate. Olhos que me enfrentam, e miram á espera de uma resposta, resposta que demoro a dar, porque estou presa no tempo. Estou ocupada a analisar cada movimento, cada piscar de olhos, cada roçar de lábios. O simbolismo de cada palavra. E quem demora 3 segundos a responder de volta é retardado, o que faz de mim ligeiramente retardada então. Quando na verdade o meu único "crime" é ser observadora, demasiado.




Ele_


Ok, cinco páginas feitas, só mais duas e já está!! Poderei voltar para casa e escapar  a este tédio. O meu rabo poderá apreciar o fofo e confortável do meu colchão e mais importante de tudo, irei comer! Sou bom a desenhar, porque é que não nasci com boa memória também? Porque é que deixei as chaves e o telemóvel em casa? Diz me pai, porque é que saí a ti? 
A minha única salvação é ás 20h, quando o meu colega de quarto chegar do trabalho.

Ás vezes gostava que as pessoas fossem estátuas, para poder apanhar-lhes o traço. Movem-se tão depressa, tão ocupadas, concentradas no seu próprio mundo sem ter noção do mundo á sua volta. Ao redor está o mal, existem ladrões, existem sequestradores ou existem estudantes universitários da escola de artes a tentar captar a sua essência numa folha de papel. Pessoas como eu, mas de novo, elas movem-se tão depressa. O perfeito exemplo disso é esta rapariga apressada, sem noção da minha presença. 
Chinelos, nesta calçada? Corajosa. Tentei representa-la num esboço rápido, ficou sem olhos e com mãos sem dedos, mas havia um detalhe que tinha de ficar perfeito. Seria B ? Não, de maneira alguma, toda aquela elevação, só pode ser um 38C! Ela quase que corre, isso proporcionaria o movimento perfeito ao desenho.
Ela parou para ver as horas, consegui ver-lhe melhor o rosto. Eu conheço-a. Chamei por ela e parou. Trocamos algumas palavras, ela disse que tinha de correr, então acenei. E de facto eu tinha razão, o movimento ficou perfeito no esboço.


Já passou algum tempo, e já passou muita gente, mas nenhuma que queira desenhar, mesmo estando a uma folha de ir jantar. Será que ela ainda passará por aqui? Já é tarde, aposto que o meu colega já chegou e ocupou o sofá com a sua lasanha congelada. E deixei de sentir o meu rabo a já algum tempo. Ela já não volta. 
E justamente quando estava prestes a levantar-me, vi um sombra  indecisa, num conflito entre avançar ou recuar. A sombra desapareceu e apareceu ela. Aproximou-se e falamos. Nunca pensei que um 38C visto de baixo, seria tão majestoso. Isso senta-te ao meu lado, deixa-me contempla-las mais de perto. Uau, ela é tão bonita, é a primeira vez que de facto estamos tão próximos. Gostos dos seus olhos, tão rasgados e sedutores, e do seu sorriso. Definitivamente do sorriso. Parece um sol incandescente, cega-me ao ponto de não conseguir desviar-me, é impossível olhar do pescoço para baixo. Ela não tem a noção que simplesmente me seduz.
Pergunto-me se estarei a ser uma companhia aborrecida, ela olha para mim, mas vejo-a a divagar no olhar, distante. Parece meio nervosa, atrapalhada na sua resposta. Bem a razão não sou eu de certeza.
Mas não importa, já me esqueci que tinha fome e já sei o que desenhar na minha ultima folha.

Sem comentários:

Enviar um comentário