sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Capitulo 2 - Apenas o meu final feliz ~ Tada de atashi no shiauwasen saigo

Capítulo 2 ~ Travessia do Rio Nilo


Completava-se quase uma semana de aulas.
Yui dava voltas na escola com a sua melhor amiga Maya. Tornaram-se amigas no básico quando Yui mudou de escola e transferiu-se para o 6ºE. Embora já não fossem da mesma turma, pois Yui escolheu Artes e Maya Ciências da Tecnologia, já lá vão7 anos de amizade.
Ambas combinaram trazer saia nesse dia. Maya vestia uma saia de padrão axadrezado vermelho, uma T-shirt preta e usava colans de renda preta, calçando All Stars, já Yui vestia uma t-shirt preta com a frase “ Metal inside”1 estampado; a saia era também axadrezada mas em tons cinzentos e rosa, usando colans de renda rosa choque sobre colans pretos, calçando ténis cinzentos de skater e claro, presos à saia estavam os suspensórios preferidos de Yui, aos quadrados rosa e preto. Eram Metaleiras/ Punk/ Rockeiras de alma, das poucas que existiam naquela escola.
- Então, tens colegas novos na turma? – pergunta Maya.
- Sim, havias de ver meu! Cambada de idosos – disse Yui revoltada – Acreditas que já é a 3º vez que estão a repetir matemática?
- Omg, que burros! – alegou Maya num sorriso trocista.
- Eu devia devolver-lhes as bengalas e obriga-los a sentar numa cadeira de rodas, presa por vários balões. Tipo no filme “ UP “, a casinha do velhinho. And make them fly away2! … Bwuahahah – termina o seu plano diabólico, com um riso maquiavélico.
Maya ri-se.
- E depois fazias tiro ao alvo aos balões – Maya completava o plano diabólico – Eles despenhavam e dava-se uma grande explosão de fogo de artifícios!
Riram-se as duas.
- Eles partiram-me o coração, acabaram num fracção de segundo com as minhas ilusões criadas no verão … Sabes, há coisas que não se fazem … - Yui fingia representar, dando um dramatismo desnecessário à sua frase.
Riram-se outra vez.
A conversa desenvolveu. Falaram de como a escola tinha sido dominada por uma onde de crianças com cabelo à surfista, de como as meninas ainda agora saídas do 9º ano andavam de saltos – o que haveria sido feito dos ténis? - e o pior de tudo, de como gradualmente, aluno, a aluno estas “ crianças do nono ano”, como dizia Yui, não conseguiam resistir à pressão feita, pela sociedade, manterem-se fiéis a princípios , valores e não fumar.




No dia seguinte, na aula de português após o toque para o intervalo, Yui apressa-se a sair da sala para que consiga chegar rapidamente ao bar da escola, e não apanhar fila. No mesmo bloco que o bar situavam-se: a papelaria, o refeitório e o ASE. Chegando ao bloco, logo á entrada Yui depara-se com um grande dilema, ir pelo caminho mais comprido ou ir pelo caminho mais curto? Optar pelo caminho mais curto seria a opção mais óbvia a tomar, mas havia um pequeno problema. A distância entre a entrada do bloco e a entrada do bar era curta e no meio desse mesmo pequeno espaço, estava pousado uma grande e larga – cujos bonecos em campo estavam enferrujados – mesa de matraquilhos.
- What the fuck?! - disse Yui abrindo os olhos – isto não estava cá no ano passado!
- Pois não, trouxeram este ano – diz um conhecido de Yui.
Cumprimentam-se, e o conhecido continua a sua vida.
- What?! A escola está a tentar ocupar espaço ou impressionar as crianças do 10º ano – pensa Yui revoltada – quando eu estava no 10º não havia nada grande que fizesses barulho. Porque é que a escola não nos impressiona a nós ?!
O sentimento de injustiça fervilhava em Yui. “ As crianças do 9º ano” amontoavam-se em volta da mesa de matraquilhos – o que dificultava a passagem para o bar, visto o espaço já ser pequeno - Uns assistiam, outros jogavam. De olhos a brilhar e emoções à flor da pele, ali estavam eles, cada vez que era feita marcado um golo faziam barulho, sem marcação faziam barulhos. Eles eram barulhentos.
- Parem de chegar e ocupar espaço, suas crianças não obesas! – pensa, pondo a mão na cabeça frustrada.
Os segundos voavam, mas havia uma solução, escolher o caminho mais comprido. Yui apenas teria de passar pela papelaria, pelo refeitório, pelo ASE e chegando ao bar teria de andar mais uns passos para chegar à fila. Era simples e não estava preenchida por alunos, havia espaço suficiente para uma circulação saudável e não atribulada.
- Ok, whatever, eu vou por aqui – Yui começa a mover-se – com licença! Dá um jeitinho! Deixa passar.
Foi pelo caminho mais curto. Porque haveria ela de ir pelo caminho mais comprido, se num outro percurso o bar estava a passos de distância. Yui era alta, media 1.75 e na sua mente acreditava fortemente que intimidava as pessoas – os mais baixos e as crianças. Tinha também um truque na manga, uma técnica ao qual intitulava como “ O Matrix”. Desenvolveu-o à muito tempo, meados de 7º, 8º ano. Um belo dia, Yui acompanhada por Maya passeava pela escola, e é então que repara num rapaz que vinha correr na direcção dela. Foi como se conseguisse ler através daquela pessoa, ele não iria parar. Havia duas hipóteses: sair do caminho e deixa-lo continuar ou então, sim, ou então desviar-se! Afinal porque é que teria de ser ela a sair da frente? O rapaz poderia muito bem abrandar, ou ainda mudar de faixa. Mas ele não o fez.
O sentimento de injustiça fervilhava em Yui. Então sem arrependimentos, apenas boas memórias, Yui desviou-se. A meros milímetros de chocar com o rapaz, cair, bater com a cabeça no chão e ter um traumatismo craniano, Yui desviou-se. Num rápido movimento giratório, Yui desviou-se.
Olha para Maya com um sorriso rasgado e inocente, com um olhar vitorioso de quem correu a maratona contra o mundo e venceu. Maya devolve-lhe o sorriso e …
- AAAAAAAAAAAAAAAAAUU! – grita Yui – porque é que me deste esse carolo ??
- Baaaaka! – responde Maya, elevando a sobrancelha.
Yui nessa altura ainda não sabia, pois era jovem e inocente, mas sofria de SCMA: Síndrome do Contra e Minimal art. Resumia-se nos seguintes comportamentos, ser do contra e fazer o mínimo possível na vida.

Para a esquerda, para direita, rodopio, braço para cima, Yui avança com confiança por entre a multidão e chega finalmente ao bar. A fila era enorme, de maneira alguma conseguiria comprar, comer e chegar a tempo às aulas.
- Não faz mal … Não me arrependo de nada – desabafa consigo mesma, olhando para o chão e cerrando os punhos. Acto digno de um herói, admitir a sua derrota e ter bom desportivismo.
Regressa para a entrada do bar. Para e encara a multidão de frente uma ultima vez. Dá um passo.
- Esta gente é como o rio Nilo, longa e sem fim – pensa – atravessei-o uma vez e vou FAZÊ-LO DE NOVO!
Coragem, empenho e determinação comprimidos numa só alma.
A travessia estava a correr bem até que …
- Desculpa, desculpa – olha para cima. Chocou contra um rapaz.
O rapaz era alto. Não fez caso ao encontrão, olhou para Yui e continuou a ir na direcção do bar. Estava acompanhado por uma rapariga. Apenas 3 coisas despertaram a sua atenção no rapaz. A sua mala de lado preta, com figuras do género Lego verdes da marca Gola – visto ser alto, observou-o de baixo para cima; os seus grandes lábios carnudos e o seu chapéu preto com 3 barras na horizontal, das cores: verde, vermelho e amarelo. Estava associado à Jamaica. Vestia-o ao contrário.
Yui não olhou duas vezes, não parou, não olhou para trás e independentemente dos seus esforços chegou atrasada à sala.
No dia seguinte, no mesmo intervalo, com a mesma intenção, a mesma intensidade demográfica amontoava-se em volta da mesa de matraquilhos. Yui abrange então o matrix sobre a população, chega ao bar e tem a mesma decepção do dia anterior. Atravessa o “ rio Nilo” com o mesmo heroísmo e choca de novo contra o mesmo rapaz. Desta vez sozinho.
Yui reconheceu-o por causa da mala de motivos verdes e pelos lábios carnudos, hoje não usava chapéu. Desta vez os seus olhares cruzam. Desta vez mutuamente fixam os seus rostos. Mais uma vez a aventureira Yui lamenta o incidente e ele apenas faz uma cara amigável, de como quem não se importou. Cada um seguiu o seu caminho, e desta vez Yui olhou para trás.
- Damn! Nice ass! – pensou.
Quando Yui virou costas, o rapaz também se virou para trás, para mira-la.



Metal inside1 ~ Metal no interior
And make them fly away2 ~ E fazê-los voar para longe






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